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AOS 73 ANOS, MORRE DOM CÉLIO.
 
Data da publicação: 19 de janeiro de 2018
 

Por Lucas Silveira -  19 de janeiro de 2018

A Diocese de São João del-Rei acolheu com pesar, na manhã desta sexta-feira, 19, a notícia do falecimento de seu bispo, dom Célio de Oliveira Goulart, aos 73 anos. Dom Célio lutava contra um câncer no pâncreas desde o final de 2016 e estava internado na Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei desde o dia 26 de dezembro de 2017.

Natural de Piracema, pequena cidade no oeste mineiro. Dom Célio era o sexto filho de uma família de sete irmãos, o filho de João Rodrigues de Oliveira e Maria Geralda Goulart despertou logo cedo para a vocação.

Foi no exemplo da família simples do interior, mas, profundamente religiosos e tementes a Deus, que Célio disse o seu sim a vocação sacerdotal.

Fez seus estudos de filosofia no Convento São Boaventura, em Daltro Filho (RS) e no Convento Santa Maria dos Anjos, em Betim (MG). Cursou teologia no Convento Santo Antônio, em Divinópolis (MG), e no Instituto de Teologia da PUC-Minas, em Belo Horizonte (MG).

Em 12 de julho de 1969 foi ordenado padre pela Ordem dos Frades Menores (OFM). Em agosto de 1998, foi nomeado bispo da diocese de Leopoldina (MG) e adotou como lema “A cruz é a força de Deus”. Em 2003, foi transferido para a diocese de Cachoeiro do Itapemirim. De 2003 a 2007, foi presidente do Regional Leste 2 da CNBB (estados de Minas Gerais e Espírito Santo) e membro do Conselho Permanente da CNBB. Dom Célio tomou posse como bispo da Diocese de São João del-Rei no dia 17 de julho de 2010.

Seguindo o exemplo de seu Santo de devoção, São Francisco de Assis, Dom Célio levou sua vida espalhando amor e simplicidade por onde passava. Apaixonado com um feijão com arroz e “franguinho” caipira, o bispo se tornou um verdadeiro pai para toda a comunidade diocesana.

Em uma entrevista concedida ao DEDICOM (Departamento Diocesano de Comunicação) em 2016, Dom Célio falou sobre o início de sua caminhada sacerdotal, seus exemplos de vida e seus sentimentos frente à caminhada episcopal. Confira a entrevista:

DEDICOM – Quem é Dom Célio de Oliveira Goulart?

DOM CÉLIO – Sou o sexto filho de uma família de 7 irmãos, 4 mulheres e 3 homens. Meus pais foram pessoas simples do interior e profundamente religiosos e tementes a Deus, que nos deram testemunho de vida e nos educaram muito bem. Agradeço a Deus pela vida e por todos que me ajudaram até o dia de hoje, fazendo parte de minha história.

DEDICOM – Quando criança, o senhor já sentia o desejo de ser padre? Chegou a “brincar” de missa, procissão, …?

DOM CÉLIO – Após ter feito a Primeira Comunhão, senti-me atraído a ser coroinha pelo testemunho de vida de nosso Pároco, Pe. José Ferreira Neto, na cidade de Itaúna, para onde nossa família havia mudado no mês de julho de 1948.

DEDICOM – A  família é muito importante para o desenvolvimento do homem. Como era o seu relacionamento familiar? Qual o maior aprendizado herdado de seus pais?

DOM CÉLIO – Agradeço pelos pais e irmãos mais velhos. Deles recebi a  fé e o testemunho de vida cristã, como também atenção, carinho, estima e todos os cuidados necessários em minha vida de criança. Certamente dei muitas preocupações a meus pais e irmãos mais velhos, porque, inicialmente morando no interior de uma pequena cidade que era Piracema e, posteriormente aos mudarmos para a cidade de Itaúna, tudo era muito difícil. Mas, meus pais e irmãos foram lutadores e nos deram o que foi possível: segurança, estudo, bons exemplos e nos conduzindo nos bons caminhos. Somos hoje seis irmãos. O mais velho já é falecido. Somos preocupados uns pelos outros e muito unidos.

DEDICOM – Por que a escolha da Ordem Franciscana?

DOM CÉLIO – Muito por acaso.  Em 1954 um dos primos já havia entrado no Seminário dos Frades Franciscanos, na cidade de Santos Dumont. Meu tio falou com o Frei Joaquim, responsável para encaminhar as crianças ao Seminário. Eu pensava em ser um padre como o meu Pároco, que era um Sacerdote Diocesano, mas os caminhos foram diferentes. No Seminário Franciscano conheci o que seria a Ordem Franciscana pelos estudos e pelo testemunho dos frades franciscanos. Assim começou minha história de seguimento a Jesus Cristo pelos caminhos de São Francisco de Assis.

DEDICOM – Com quantos anos o senhor entrou no seminário? Como foi essa etapa na sua vida?

DOM CÉLIO – Quando comecei minha experiência no Seminário Franciscano iria fazer 10 anos de idade. Naquele tempo era costume que os meninos fossem ao Seminário após ter concluído o 4º ano primário. Eu fui no meio do ano, em julho de 1955, quando então conclui o 4º ano e iniciei o período de mais sete anos no Seminário Menor. Depois foi o início da Vida Religiosa Franciscana com o ano de Noviciado, em 1963. A partir de 1964, mais seis anos com os estudos do Curso de Filosofia e Teologia. Eu fiz minha Profissão Solene na Ordem Franciscana em fevereiro de 1968 e em julho de 1969 recebi o Sacramento da Ordem Presbiteral. Tempos muito marcantes na formação de uma criança que queria ser padre. De um jovem que conheceu o carisma de vida de São Francisco de Assis e que entendeu, já como adulto, o que seria ser um religioso sacerdote a serviço do Reino de Deus. Não tenho como agradecer a Deus por tamanha misericórdia par comigo!

DEDICOM – O senhor tinha desejo de se tornar bispo?

DOM CÉLIO – Ser Bispo não é uma vocação, mas uma missão que recebemos da Igreja. Conhecia meus limites, meus poucos dons pessoais para uma missão tão importante na Igreja. Quando, pois, fui comunicado em um telefonema pelo Cardeal D. Serafim de minha nomeação como bispo para a Diocese de Leopoldina, minha primeira reação foi de choro e de oração.  Agradecia a Deus e lhe implorava suas graças necessárias para assumir com dignidade essa missão e que Ele me desse a graça de ser um bom pastor para o povo onde deveria exercer esta missão.

DEDICOM – Por que a escolha do lema “A cruz é a força de Deus” para o seu bispado?

DOM CÉLIO – Sempre me impressionei com a festa litúrgica do dia meu nascimento, a festa da Exaltação da Santa Cruz. Nos estudos teológicos tive oportunidade de aprofundar a realidade da ação salvadora de Jesus Cristo pelo mistério de sua Paixão e Morte na Cruz. Esta passagem que escolhi é da 1ª carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 1, 18. O título de nossa Província Franciscana de Minas Gerais é Província da Santa Cruz.  Nossas realidades de vitória e de ressurreição passam pela Cruz. Assim foi minha escolha por esta frase temática,A Cruz é Força de Deus!

DEDICOM – Quando o senhor recebeu a notícia de sua nomeação para a Diocese de São João del-Rei, qual foi sua reação?

DOM CÉLIO – No primeiro momento, foi de medo e receio, por conhecer a realidade muito exigente que me esperava. Tive oportunidade de conversar muito com o Sr. Núncio Apostólico sobre isto em Brasília. Acreditava que havia outros bons nomes para realizar a missão. Estava muito bem em Cachoeiro de Itapemirim e deveria mais uma vez me desinstalar. Mas, sempre, como frade e, depois como bispo, procurei obedecer à missão conferida pela Igreja e disse o meu sim com muita consciência de que, obedecendo, Deus abriria os caminhos para que fosse aqui muito feliz, como de fato tenho sido.

DEDICOM – Seja em visita Pastoral, ou festas de comunidade, o senhor mantém um forte contato com toda a Diocese. Há alguma cena, ou manifestação de carinho que tenha te marcado?

DOM CÉLIO – Sempre, aqui como também em Leopoldina e em Cachoeiro de Itapemirim, chamou-me a atenção o carinho do povo, o respeito, a acolhida que manifestam pela pessoa do bispo. Vejo assim que o povo nos quer como pastores, muito próximos de todos, acolhendo a todos sem discriminação. Não saberia especificar momentos especiais, mas sinto que as crianças e os idosos enfermos me encantam muito nos contatos realizados com estes grupos.

DEDICOM – Como o senhor avalia sua vida e sua caminhada sacerdotal e episcopal?

DOM CÉLIO – Sou agradecido a Deus que me conservou neste caminho. Houve momentos difíceis, seja na vida franciscana e sacerdotal, como também hoje na vida episcopal, a serem enfrentados, que percebi com muita clareza a graça de Deus e a ajuda das pessoas que rezam por nós. “Temos em nossas mãos, como diz São Paulo, a graça de Deus como que conduzida em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós” (2Cor  4, 7).

Em setembro de 2017, próximo a data do seu aniversário, ele concedeu outra entrevista e falou sobre fé, o simbolismo da cruz e sobre a doença do câncer que ele vinhe enfrentando desde dezembro de 2016.

O corpo de Dom Célio está sendo velado na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde amanhã, sábado, 20, será celebrada, às 10h, a missa de corpo presente. Em seguida, ele será transportado para Itaúna a pedido dos familiares. Ele será velado na Igreja Matriz de Sant’Ana e o sepultamento será no domingo, 21, após missa às 10h, no Cemitério Central.

 

 

 
 
 
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